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A hora do luto

    E hoje venho escrever-vos numa das alturas que me estou a sentir pior. Lembram-se de eu dizer que estava a tentar ver as coisas pelo lado positivo, apesar do diagnóstico que tivemos, que estava conformada com esta nova fase? Mas, como sempre, a vida prega-nos rasteiras. Posso começar por adiantar que tive uns dias de pura alegria, de surpresa, mas foi uma fase que durou muito pouquinho, e quando uma pessoa achava que nada mais podia piorar eis que aparece algo que te faz lembrar que não é bem assim, ainda pode vir aí algo que não estejas a contar.


    Ora vamos lá começar com a história toda, que começou numa bela manhã de Sol do dia 4 de Agosto, em que acordei e já há alguns dias que estava a estranhar o meu período não ter aparecido, apesar de eu já sentir alguma tensão mamária há algumas semanas, coisa que nunca acontece. Então, apenas por descargo e para tirar a ideia que já estava aqui a ficar implantada, fiz um teste de gravidez, mesmo estando 90% inclinada para que o resultado fosse negativo. Mas, surpresa das surpresas, 2 riscos apareceram! Eu não quis acreditar, confirmei várias vezes com as instruções que vinham junto com o teste e efetivamente eu estava GRÁVIDA! Ao fim de 2 anos e 3 meses eu tinha tido o meu primeiro positivo! Como devem de imaginar foi um momento de êxtase, que rapidamente eu tentei controlar porque eu tinha um diagnóstico de trompas não permeáveis, em que a médica me tinha avisado que o espermatozóide até podia se conseguir encontrar com o óvulo, mas poderia não conseguir descer para o sitio certo. Então, o primeiro passo foi marcar uma ecografia o mais rápido possível para que conseguisse perceber se seria uma gravidez viável ou não. A ecografia foi na quinta-feira seguinte, foi dos dias que eu estava mais ansiosa, tinha plena consciência de que o mais provável era ser uma gravidez ectópica, mas a esperança não deixava de estar lá. Afinal, era o meu primeiro positivo ao fim de este tempo todo de tentativas, era um pequeno sinal de esperança. E, mais uma vez, surpresa das surpresas, ele estava a desenvolver-se no sítio correto. Depois desta notícia, relaxei e achava mesmo que era desta vez, que eu ia poder usufruir de uma gravidez, com surpresa, que era algo que eu queria experienciar, sabia que o primeiro trimestre era o mais critico, porque é quando ocorrem a maior parte dos desenvolvimentos e o corpo se transforma por completo, mas naquele momento tudo parecia que ia ser mágico, que nada de pior poderia acontecer, afinal tínhamos acabado de conseguir ultrapassar o entrave que nos tinha sido diagnosticado. Ele estava ali, bem pequenino, um saquinho redondinho a crescer onde devia.

    Mas, já vos disse que a vida nos prega rasteiras? Pois, é que passei por uma bem grande, que me deitou completamente ao chão. Estava a fazer tudo direitinho, a alimentar-me bem, tinha as consultas de acompanhamento marcadas, consulta com a nutricionista para nutrir bem este bebé que estava em desenvolvimento, tinha tudo direitinho e nada me faria prever o que ainda estava para vir. Depois daquela ecografia, literalmente, passaram 2 dias, apenas 2 dias que efetivamente estava a saborear esta experiência de uma gravidez, mas aí chegou a rasteira. Fui à casa de banho e tinha um corrimento indesejado, que podia ser normal como ser um aviso de aborto, nesse dia fui logo às urgências, fui examinada e continuava tudo direitinho, então, para já, não era preciso preocupar. No entanto, durante a noite vieram as temíveis cólicas, uma perda de sangue, uma nova ida às urgências e, desta vez ele já não estava onde devia. "O saquinho desceu". E assim terminou um sonho. Um sonho que mal tive tempo de saborear, um sonho que parecia um autêntico milagre, mas não o era.

    Para além das dores físicas, ficou uma dor ainda maior no meu emocional, qualquer coisa pode ser um trigger para eu desabar. O simples facto de ver a minha casa a andar e a ficar linda, me fez desabar, porque neste momento parece que é o único sonho que iremos conseguir alcançar. Tento olhar para o lado positivo, como estava a fazer e o meu companheiro me pede e tenta convencer, porque tudo na vida tem um motivo. Mas, neste momento o medo agarrou-me e eu não consigo me soltar, porque afinal o problema não vai ser só o encontro entre o espermatozóide e o óvulo, vai ser depois a gravidez chegar ao fim, a probabilidade de isto voltar a acontecer é de mais de 90% e estou com dificuldades em aceitar que a próxima vez vai cair nos tais 10%. Sinto que sempre que me agarro a um bocadinho de esperança, vem qualquer coisa para me derrubar. Tento ser forte, ter coragem e enfrentar mais esta fase, até porque as palavras do meu companheiro não me saem da cabeça, "Eu preciso de ti". E a verdade é essa, no fim, nada disto importa, porque nos temos um ao outro, somos a chama que alimenta a vida um do outro. Somos amor. Precisamos um do outro, e enquanto nos tivermos um ao outro seremos capazes de tudo. É a este amor que me tento agarrar porque é ele que me dá conforto. Não está a ser fácil, afastei-me das redes sociais, onde já estava a ser inundada com coisas de maternidade, de coisinhas para bebé, e na altura do positivo aquilo me confortava e me dava esperança, mas neste momento, só quero avançar, então, simplesmente afastei-me. As amostras que tinha recebido no centro de saúde estão guardadas junto com aquele teste positivo, que durante algum tempo me encheu de alegria. Está tudo guardado, porque ele/ela, que nem sequer o coraçãozinho cheguei a ouvir era o meu primeiro filho/filha, era o fruto de um amor gigante que queremos tanto partilhar e já faz parte deste nosso caminho, que já vai longo e tenho receio que ainda se torne mais comprido.

    Tenho a minha fé abalada neste momento, sinto que fui desamparada, porque depois de ir agradecer, o pior aconteceu. Mas estou a tentar recarregar energias para continuar esta batalha, uma batalha dura, mas desistir está completamente fora da equação.

    Nesta fase a esperança é muita curta, mas quero acreditar que dias melhores virão. Torçam por nós, que estou a torcer por ti.

Até à próxima aventura,
ASilva

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